Como filha, sofro
mas entendo
porque fui condicionada a isso.
a entender que as necessidades dos outros são mais urgentes
e que as minhas ficariam para quando houvesse tempo
que eu não posso desgostar ou me chatear
e que ao conversar sobre isso estarei sendo ingrata
que afastar é ser injusta, porque o que machuca é irrelevante
mesmo quando ferem minha dignidade enquanto pessoa
que existem pessoas com dores mais graves
e que eu preciso entender de um jeito novo
porque o jeito que eu entendo não é o certo
o jeito que faço as coisas não é o certo
e só você sabe da verdade das coisas
só você sabe da vida
porque eu sou principiante, caio nas armadilhas
você não, você é sabia
e quando eu pensar algo diferente disso
estarei machucando você e você não merece
porque fez tudo por mim, a vida toda.
eu nunca fiz nada por você e tenho obrigações a pagar
mesmo que isso me torne infeliz e frustrada
Como mãe, revolto
porque nunca faria algo parecido aos meus filhos
quero que eles se sintam amados e protegidos
tendo a liberdade para serem quem são
a mim, não devem nada
e o sofrimento deles é o meu
no diálogo encontramos caminhos seguros
para lidar com todas as adversidades
e se algum dia se sentirem machucados
estarei aqui, dando o meu sangue caso precisem
porque a vida deles é a minha
e minha vida não seria a mesma sem eles.
então sim, somos diferentes:
o que há na primeira relação é amor, mas vem com culpa, com medo, com mágoas.
o que há para com meus filhos é amor e liberdade
meu peito não prende, faz ninho para crescerem em segurança e voarem quando preciso
sabendo que podem voltar o tanto quando quiserem.